Pra começo de conversa...

Atualizado: 27 de jul.



A vida é realmente muito louca, né? Quem diria que hoje, 24 de junho de 2022, eu estaria escrevendo um texto para apresentar mais uma faceta da minha parceria com a Editora Claraboia? Sim, como “a cara da Clara”, eu também irei publicar mensalmente textos autorais no blog da editora.


E onde está a loucura nisso, Carulina? Você deve estar se perguntando, não? Aí vai: em 24 de junho de 1956 (!), meu pai desembarcou no Rio de Janeiro, “fugido” dos horrores da Segunda Guerra, com um contrato de trabalho em uma metalurgia nas mãos e muita esperança no peito. Naquele dia, além da emoção da chegada em um novo mundo, o coração pulava porque, ao descer do navio, ele se deparou com um pandemônio (ainda não havia pandemia): “Bem que me avisaram, no Brasile, quando não tem revolução de dia, tem de noite!”. Mas não era revolução, eram fogos de São João!


Muita coisa aconteceu de lá pra cá – e eu contarei algumas delas em próximas conversas –, por ora, devo dizer que foi com ele que aprendi o gosto pela leitura, pelo cinema, pela palavra. Foi com ele que aprendi a ser quem eu sou e não me desculpar por isso; “mais vale um gosto”, ele me dizia…


Agora, se tenho o @encruzilinhas – projeto de leitura e debate de textos sobre negritude, gênero, feminismos e militância –, é porque meu pai sempre assinou embaixo de todos os meus planos e sonhos. Desde o de “virar” ministra da educação até o de casar com o Brad Pitt. Era ao seu lado, durantes longas tardes, que eu preenchia minhas agendas – sim, eu sou dessa época, #respeitaaminhahistória!


Sua partida acabou com tudo isso. Não escrevi mais, não comi pêssegos, não dei mais aquelas risadas, não desejei e acreditei em outros mundos e futuros. Não fui mais eu mesma. Nunca mais. (Será que algum dia voltarei a ser?)


Entretanto, novas histórias começaram a ser escritas – quase sem querer. Em 2018, fui demitida da universidade privada na qual ministrava aulas e, com o tempo livre, decidi me dedicar à seleção para o doutorado. Já fazia um tempo que questões sobre racismo, gênero, classe e imigração – a tal da interseccionalidade, né – estavam me assombrando. Surgiu, então, a ideia de pesquisar as brasileiras negras casadas com italianos e residentes na Itália. Tudo pareceu ser (quase) natural. A proximidade com o tema se mostrou um ponto positivo. Sendo eu mesma fruto dessa (improvável) relação, me limitaria a entender como outros italianos – que não o meu pai (nascido em Rescaldina, província de Milão) – e outras mulheres negras – tais como a minha mãe (nascida na Bolívia, criada no pantanal e paulistana de coração) – se relacionavam.


Tantas expectativas depositadas nesse projeto... Depois de anos sem escrever, a aprovação no programa de pós-graduação em mudança social e participação política da EACH-USP veio. Porém, depois de apenas uma aula, a pandemia chegou, as aulas foram canceladas, o fim do mundo foi decretado no planeta. Em casa, isolades, por tempo (in)determinado.


Mas eu tinha que falar. Eu precisava compartilhar com alguém o que [eu] estava enfrentando. E foi assim que o @encruzilinhas nasceu: em rede, a muitas mãos, amparado por muitas mães.


Então, estar aqui hoje, preenchendo (mais) essa página em branco é libertador, mas também muito simbólico. Que falseta você me aprontou, hein, Brogio?


E aí, care leitore, entendeu agora a maluquice do dia? Coincidência? Que nada. É muita magia (preta). Sendo assim, espero contar com sua escuta generosa nas próximas colunas. Sim, haverá próximas, até porque, como diz Gloria Anzaldúa:


“porque a escrita me salva da complacência que me amedronta. Porque não tenho escolha. Porque devo manter vivo o espírito de minha revolta e a mim mesma também. Porque o mundo que crio na escrita compensa o que o mundo real não me dá. No escrever coloco ordem no mundo, coloco nele uma alça para poder segurá-lo. Escrevo porque a vida não aplaca meus apetites e minha fome. Escrevo para registrar o que os outros apagam quando falo, para reescrever as histórias mal escritas sobre mim, sobre você. Para me tornar mais íntima comigo mesma e consigo. Para me descobrir, preservar-me, construir-me, alcançar autonomia [...]. Para me convencer de que tenho valor e que o que tenho para dizer não é um monte de merda. Para mostrar que eu posso e que eu escreverei, sem me importar com as advertências contrárias. Escreverei sobre o não dito, sem me importar com o suspiro de ultraje do censor e da audiência. Finalmente, escrevo porque tenho medo de escrever, mas tenho um medo maior de não escrever.” (Anzaldúa, 2000:232)


Até!


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